domingo, 30 de maio de 2021

tudo normal

veio a pandemia

e tudo ficou borrado

dias, encontros, tudo mal-diagramado 


foram-se muitos

entre tantas, você, Mami

sem ar, sem vida, sem ti 


engordamos do excesso

de tanto sentir falta

- ah, como era infinito o velho normal

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

colapso das instituições

BERRANDO
......... é como vou nascendo (!)
n dá mais ////
              pra ficar em silêncio
elxs n ouvem
- valha-me Senhora 
                      #fakenews
grrrrrrrrrrrw
e depois
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

                                   colapso das instituições

por Antonia da Silveira

domingo, 27 de novembro de 2016

fim em 5 atos

os pássaros que passaram por aqui
eram os passos apressados
do dia que Ele me deixou

não havia riso nem choro nem vela
que curasse a pólvora ardida
metida pelas palavras Dele no meu coração

o piso gelado queimando os joelhos
contrastava com o vermelho dos meus olhos
que invariavelmente Lhe pediam explicações

do fugaz evangelho dos Seus motivos
injustas seriam as penitências do porvir
aos berros, sentenciei-me sem razão

da morada, fez-se muralha
da muralha, xilindró
e da memória, restou somente pó

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

1

As noves horas, deitado na posição fetal, em frente à televisão ligada, as cores, o falar excessivo dos apresentadores, parece que haviam passado poucos minutos desde o raiar do dia para ele.
Antônio tinha se levantado do sofá três ou quatro vezes, por questões fisiológicas, em uma delas sentiu tontura e medo da morte, respirou fundo, se olhou no espelho. Olhos cansados o esperavam.
Já passava da meia-noite, ele tentava se lembrar que programas assistiu ao longo do dia, fazia bem situar-se no agora, diziam seus confidentes, principalmente depois de, como hoje, tanto tempo caminhando na zona cinzenta do escapar-de-si.
não não pode ser verdade eles gostam de mim sei que gostam as coisas só ficaram complicadas a Nani é religiosa meu irmão deve estar indo na onda tudo bem eles são os pais da criança eu não posso interferir só que ainda sim me dói muito não é justo


terça-feira, 25 de outubro de 2016

happy ending

quisera a vida fosse um romance
e a gente se reencontrasse no final

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

dia nº 20 e tanto

acordo, o sol na janela
viro, me reviro, e penso em você
te procuro, mais uma vez, na cama
lembro que dia da semana é hoje e penso na sua rotina

o peito dói com a infinidade de memórias
tento bloquear esse redomoinho dando bom-dia pro quintal (mas as rosas não falam)

rumo ao banheiro, e meu pau lembra o teu
escovo os dentes, e quem vejo no espelho é você
penso numa frase engraçada, e ela é sua
fecho a torneira, e lembro do griteiro que era pra você economizar água

minha mãe, já acostumada, me chama pro café, quase na hora do almoço
no descer e subir de escadas, imagino você me abraçando por trás, é horrível
o vazio fica estampado na minha cara
e minha mãe me empurra um ansiolítico goela abaixo

tudo dentro da rotina

o tilintar do copo de leite com toddy e o rodopiar do líquido me levam até os dias em que acordávamos juntos e eu preparava seu pote de sucrilhos com danone sem lactose
minha irmã tenta me trazer de volta falando de algo que não dou importância
ela se chateia, eu me sinto mal, ninguém fala nada
e então me lembro de você me aconselhando
"sua irmã é incrível devia se abrir mais com ela ela gosta muito de você"

eu sei
a gente sabe só que as mágoas sufocam qualquer tentativa

quando a mel, preguiçosa demais, finalmente levanta
me pego brincando com ela como você fazia
dizendo as coisas que você carinhosamente dizia pra ela
usando o mesmo tom de voz que era nosso e que agora é só seu
porque tudo são lembranças

eu não sei
não devia me permitir esses saudosismos

as meninas se apressam com suas vidas e eu fico no sofá tentando não pensar em nada
minha mãe me pede favores para eu me distrair como se eu não soubesse da desnecessidade deles
digo "tudo bem", finjo normalidades
minha irmã corre para o estágio novo

sinto que não tenho mais nada
minha rotina de faculdade não é mais minha
meu emprego não é mais meu
meus óculos se perderam
meu celular foi roubado
minha estabilidade financeira não existe
e meu pensamento continua em você, agora especificamente no dia que você me ligou, veio em casa, terminou comigo e me deixou surtado no quarto da minha mãe

ligo e desligo a TV três vezes e volto pro meu quarto
o celular, emprestado da minha amiga, apita mensagens do tinder
cada rosto aleatório, cada conversa vazia que tenho com caras mais ou menos bonitos inexoravelmente me lembram da felicidade que era ter você como parceiro
passo um bom tempo tentando me distrair com os elogios e os flertes

abro meu e-mail e me assusto com sua imagem nos contatos favoritos
é angustiante ter que te arquivar como fiz com nossas fotos, nossas conversas, suas roupas
seu boné que agora é meu me fita do criado-mudo do quarto
parece dizer algo e eu não me permito ouvir qualquer coisa que seja

olho para o meu corpo, lembro do seu, fico mal
não ando tomando banhos regulares nem me alimentando bem
os pelos estão por todas as partes
a pele mais branca do que nunca
meu sobrepeso me incomoda
tentar qualquer tipo de satisfação sexual é um caminho doloroso que também me leva a você
por isso há tempos que não me toco, não me permito, não gozo

a rotina pesa e eu acabo dormindo a tarde toda
levanto com o corpo suado, a mel me pedindo comida e passeio
dou comida e abro a porta do quintal, jamais sairia de casa evidente
acho que, de alguma forma, ela me entende

como era de esperar, algo aleatório me leva a você e, por estar despreparado, as memórias da nossa viagem pra ubatuba, meu voo pra manaus, o olhar doce e certeiro da minha antiga cunhada, a forma como meus antigos sogros evangélicos lidavam como tudo aquilo, o gosto da geleia de cupuaçu, o teu pau em mim, minha boca no seu cu, teu olhar animalesco, os tapas, o suor
só quando me excito me lembro que tudo isso morreu lá atrás

e então choro, um choro ardido sem lágrimas que é o pior que há

corro para o whatsapp, fugindo de mim mesmo, puxando assunto até com outros ex-namorados
recomeço uma cruzada de autossabotagem
pergunto o que há de errado em mim
seria a depressão, meu mapa astral, minha instabilidade, minha família caótica, meu corpo, o que seria
as pessoas a minha volta já se acostumaram a me dizer palavras caridosas nessas situações
as amigas sempre me lembram que ele era um otário e que eu havia me esforçado

eu sei
o amor é um jogo perdido


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

carta à mãe

suas crenças tornar-se-ão fábulas
e quando cairmos, haverá só a dor da carne
nosso remédio terá um nome difícil. quase impronunciável

não teremos folga

tudo normal

veio a pandemia e tudo ficou borrado dias, encontros, tudo mal-diagramado  foram-se muitos entre tantas, você, Mami sem ar, sem vida, sem ti...