acordo, o sol na janela
viro, me reviro, e penso em você
te procuro, mais uma vez, na cama
lembro que dia da semana é hoje e penso na sua rotina
o peito dói com a infinidade de memórias
tento bloquear esse redomoinho dando bom-dia pro quintal (mas as rosas não falam)
rumo ao banheiro, e meu pau lembra o teu
escovo os dentes, e quem vejo no espelho é você
penso numa frase engraçada, e ela é sua
fecho a torneira, e lembro do griteiro que era pra você economizar água
minha mãe, já acostumada, me chama pro café, quase na hora do almoço
no descer e subir de escadas, imagino você me abraçando por trás, é horrível
o vazio fica estampado na minha cara
e minha mãe me empurra um ansiolítico goela abaixo
tudo dentro da rotina
o tilintar do copo de leite com toddy e o rodopiar do líquido me levam até os dias em que acordávamos juntos e eu preparava seu pote de sucrilhos com danone sem lactose
minha irmã tenta me trazer de volta falando de algo que não dou importância
ela se chateia, eu me sinto mal, ninguém fala nada
e então me lembro de você me aconselhando
"sua irmã é incrível devia se abrir mais com ela ela gosta muito de você"
eu sei
a gente sabe só que as mágoas sufocam qualquer tentativa
quando a mel, preguiçosa demais, finalmente levanta
me pego brincando com ela como você fazia
dizendo as coisas que você carinhosamente dizia pra ela
usando o mesmo tom de voz que era nosso e que agora é só seu
porque tudo são lembranças
eu não sei
não devia me permitir esses saudosismos
as meninas se apressam com suas vidas e eu fico no sofá tentando não pensar em nada
minha mãe me pede favores para eu me distrair como se eu não soubesse da desnecessidade deles
digo "tudo bem", finjo normalidades
minha irmã corre para o estágio novo
sinto que não tenho mais nada
minha rotina de faculdade não é mais minha
meu emprego não é mais meu
meus óculos se perderam
meu celular foi roubado
minha estabilidade financeira não existe
e meu pensamento continua em você, agora especificamente no dia que você me ligou, veio em casa, terminou comigo e me deixou surtado no quarto da minha mãe
ligo e desligo a TV três vezes e volto pro meu quarto
o celular, emprestado da minha amiga, apita mensagens do tinder
cada rosto aleatório, cada conversa vazia que tenho com caras mais ou menos bonitos inexoravelmente me lembram da felicidade que era ter você como parceiro
passo um bom tempo tentando me distrair com os elogios e os flertes
abro meu e-mail e me assusto com sua imagem nos contatos favoritos
é angustiante ter que te arquivar como fiz com nossas fotos, nossas conversas, suas roupas
seu boné que agora é meu me fita do criado-mudo do quarto
parece dizer algo e eu não me permito ouvir qualquer coisa que seja
olho para o meu corpo, lembro do seu, fico mal
não ando tomando banhos regulares nem me alimentando bem
os pelos estão por todas as partes
a pele mais branca do que nunca
meu sobrepeso me incomoda
tentar qualquer tipo de satisfação sexual é um caminho doloroso que também me leva a você
por isso há tempos que não me toco, não me permito, não gozo
a rotina pesa e eu acabo dormindo a tarde toda
levanto com o corpo suado, a mel me pedindo comida e passeio
dou comida e abro a porta do quintal, jamais sairia de casa evidente
acho que, de alguma forma, ela me entende
como era de esperar, algo aleatório me leva a você e, por estar despreparado, as memórias da nossa viagem pra ubatuba, meu voo pra manaus, o olhar doce e certeiro da minha antiga cunhada, a forma como meus antigos sogros evangélicos lidavam como tudo aquilo, o gosto da geleia de cupuaçu, o teu pau em mim, minha boca no seu cu, teu olhar animalesco, os tapas, o suor
só quando me excito me lembro que tudo isso morreu lá atrás
e então choro, um choro ardido sem lágrimas que é o pior que há
corro para o whatsapp, fugindo de mim mesmo, puxando assunto até com outros ex-namorados
recomeço uma cruzada de autossabotagem
pergunto o que há de errado em mim
seria a depressão, meu mapa astral, minha instabilidade, minha família caótica, meu corpo, o que seria
as pessoas a minha volta já se acostumaram a me dizer palavras caridosas nessas situações
as amigas sempre me lembram que ele era um otário e que eu havia me esforçado
eu sei
o amor é um jogo perdido